A gestação e o nascimento de um filho são frequentemente retratados como eventos centralizados na figura feminina. Embora a experiência biológica do gestar e do parir pertença à mulher, a psicologia perinatal e as evidências neurobiológicas do desenvolvimento humano demonstram que a presença, o engajamento e a preparação emocional do parceiro (ou parceira) desempenham um papel decisivo na saúde mental da mãe, na evolução do trabalho de parto e na construção do apego seguro com o recém-nascido.
Infelizmente, a cultura patriarcal frequentemente reduz a participação do acompanhante a uma figura passiva, “aquele que segura a mão” ou que assiste ao nascimento como um mero espectador. No entanto, para que o ambiente de parto e puerpério seja um espaço de segurança, é fundamental desconstruir essa passividade e oferecer ferramentas de coparentalidade consciente.
1. A Neurobiologia da Presença: Como o Acompanhante Impacta o Parto
Sob a ótica da neuroendocrinologia do nascimento, o trabalho de parto é regulado pelo equilíbrio sutil entre dois sistemas opostos:
- O Sistema ocitocínico (Luz e Acolhimento): A ocitocina, o hormônio responsável pelas contrações uterinas eficazes e pelo sentimento de amor e vínculo — é fortemente inibida por estados de medo, estresse ou ameaça.
- O Sistema adrenérgico (Luta ou Fuga): A liberação de adrenalina e cortisol (hormônios do estresse) reduz o fluxo sanguíneo uterino e pode travar a evolução do trabalho de parto.
O parceiro informado e emocionalmente regulado atua como um “escudo de ocitocina”. Quando a parturiente se sente protegida, escutada e amparada por alguém em quem confia plenamente, o seu sistema nervoso parassimpático é ativado. Isso favorece a progressão fisiológica do parto e reduz a percepção da dor.
“A presença do parceiro no trabalho de parto não é um favor nem um privilégio social; é uma intervenção não farmacológica de suporte que protege a fisiologia do nascimento e a dignidade da mulher.”
2. Teoria do apego e a triangulação amiliar (Winnicott e Bowlby)
Na teoria psicanalítica de Donald Winnicott, a mãe atravessa um estado psíquico especial no final da gestação e nos primeiros meses do bebê. Trata-se de uma sensibilidade aguçada que permite à mulher identificar e atender às necessidades biológicas e emocionais do recém-nascido.
Para que a mãe consiga exercer essa função sem sucumbir ao esgotamento, Winnicott aponta a necessidade de um “ambiente que a apoie”. Na dinâmica familiar, o parceiro é a figura primária responsável por apoiá-la emocionalmente e lidar com as demandas do mundo externo.
Ao mesmo tempo, sob a perspectiva da Teoria do Apego de John Bowlby, o envolvimento do parceiro desde a gestação estabelece a base para que ele também se torne uma figura de apego seguro para a criança. O pai/parceiro não “ajuda” a mãe; ele exerce a paternidade/coparentalidade de forma direta e estruturante.
3. O Que o parceiro precisa saber antes do dia do parto?
Para transformar a teoria em prática diária no consultório e em casa, destacam-se quatro pilares fundamentais de preparação:
A. Conhecer o Plano de Parto e os Direitos da Gestante
O parceiro deve estudar o Plano de Parto com a gestante. No ambiente hospitalar, quando a mulher está imersa no trabalho de parto (em um estado alterado de consciência saudável), cabe ao acompanhante atuar como o guardião dos seus desejos e garantir o cumprimento da Lei Federal nº 11.108/2005 (Lei do Acompanhante).
B. Compreender a tríade do pós-Parto: sono, Cansaço e mudança de identidade
A privação de sono no puerpério é um dos maiores fatores de risco para os Transtornos de Ansiedade Perinatal e a Depressão Pós-Parto. O parceiro precisa entender que cuidar da rotina, proteger o descanso da mãe e assumir as tarefas domésticas não são concessões, mas ações diretas de preservação da saúde mental da família.
C. Lidar com a própria vulnerabilidade (O Nascimento do Pai)
A transição para a parentalidade também mobiliza conteúdos arcaicos no parceiro: medos financeiros, lembranças da própria infância e o sentimento de “segundo plano”. Validar essas emoções e buscar espaços de escuta permite que o homem ocupe o seu lugar com maturidade, sem reativar posturas defensivas ou de esquiva.
D. Proteger a intimidade do casal no Pós-Parto
A chegada do bebê reconfigura a dinâmica conjugal. O parceiro informado entende que a libido e a disponibilidade emocional da mulher estarão temporariamente voltadas para o recém-nascido, e que a reconexão do casal exige paciência, diálogo livre de pressões e cumplicidade nas tarefas cotidianas.
Um parto seguro e uma transição parental saudável não acontecem por acaso. Exigem estudo, alinhamento e, acima de tudo, o reconhecimento de que quem cuida do bebê precisa ser cuidado. Quando o parceiro se apropria do seu papel com informação e sensibilidade, ele se torna o solo firme onde a nova família pode desabrochar com segurança e leveza.
Eu sou a Psicóloga Fabiana Silva || CRP06/133045 || Especialista no atendimento de gestantes e mulheres no pós parto || Especializada em Saúde Mental e Desenvolvimento Emocional – PUCPR – Formada desde 2008, atendo há mais de 12 anos.
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